Depoimentos

Mesmo com todo apoio e conquistas da medicina na área psiquiátrica, a vida de um paciente de esquizofrenia não é fácil. Vou tentar relatar o meu dia a dia e minha experiência como portador de transtorno esquizoafetivo, um tipo de esquizofrenia com viés de bipolaridade.

Eu conheci a ABRE e me tornei voluntário dessa ONG em 2003, e foi através dela que pude construir a minha jornada de recovery, através do conhecimento e interação com outras pessoas com o mesmo diagnóstico e início do processo de superação da doença. A missão da ABRE é a de melhorar a qualidade de vida das pessoas com esquizofrenia e seus familiares através do apoio, informação e psicoeducação, lutando por seus direitos e combatendo o estigma. A ABRE, fundada em dezembro de 2002, possui atualmente grupos de acolhimento para familiares, usuários e mistos. Possui também um grupo de palestras superação de pessoas com transtornos mentais graves, a Comunidade de Fala (CdF-SP), iniciada em abril de 2015, atualmente com unidades em várias cidades no Brasil e em Portugal.

A ABRE oferece também atividades artístico-culturais através de cursos e workshops, oferecidos pelo Laboratório de Criação Casa Azul (LACCA), projeto lançando em maio de 2016, e que é a “antessala” do futuro Imagus Recovery College (a ser nominado como “Escola de Superação e Cidadania”).

Infelizmente, não só no nosso país, mas no mundo, de maneira geral, existe forte estigma e preconceito quando a temática é a “loucura”. Na ABRE defende-se um “despertar” das pessoas com experiência vivida, agora nominados de “pares”, usufruindo elementos do recovery (superação), através de processos criativos, com autonomia e apoio da família e amigos (suporte de pares). O foco agora é na perspectiva do paciente, com o psiquiatra/médico “calçando o sapato” do seu “paciente”. Medicação e autonomia são negociadas no processo de decisão relativo ao tratamento. Combate-se o estigma internalizado e do profissional através de psicoeducação, combatendo a profecia apocalíptica, e muitas vezes auto cumprida, de que os transtornos mentais graves não possuem recuperação tratamento de reabilitação. Faz-se clara distinção entre o recovery clínico e o recovery social. Suporte por pares, com a formação de grupos e vínculos são prestigiados e estimulados.

O processo do recovery agora é visto sob a óptica do paciente, que enfrenta um dia de cada vez, “amansando um leão por dia”. Protagonismo e suporte pelos especialistas em vivência são estabelecidos como caminho a prática orientada ao recovery sob realidade brasileira, pois as experiências, vivências e lições enquanto par são únicas. Lições e aprendizados de vida, o know-how, é agora a partir das experiências principalmente dos pares, a partir da vivência de cada um. Isso representa uma enorme mudança de paradigma e no protagonismo da pessoa que é central no tratamento, ou seja, o usuário final. Por fim, pode-se contatar pelas evidências não apenas científicas, mas vivenciais através do relato de narrativas de pessoas com transtorno mental grave, e em recuperação, que o recovery é um caminho inexorável e sem volta no manejo e trato das questões relativas à saúde mental no mundo, não só como experiência e movimento internacional, mas com sucesso consolidado e adotado como política de saúde mental da OMS.

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